O simbolismo da Torah e o universo primordial - Parte I
O simbolismo da Torah e o universo primordial
Nesta sequencia de ensaios vamos ter uma visão geral a respeito do simbolismo encontrado na Torah que tivemos a oportunidade de visualizar até o presente momento.
Um dos paralelos mais evidentes é o da montanha, pois esta palavra em hebraico הר (Letra He e Resh do alephbet– Correspondentes a H e R no alfabeto latino) aparece duas vezes na palavra הרהור sendo que a segunda vez em que aparece é separada pela letra vav (Em vermelho).
A palavra הרהור, representa pensamento, produto da mente, mente, conceito, ideia, reflexão, ponto de vista e outros tantos significados de mesma raiz.
Imaginemos que a nossa mente seja algo que se estende além de nossa percepção objetiva, tendo uma barreira que é a fronteira de nosso subconsciente e indo muito além de nossa fisicalidade. Na realidade vai muito além de tudo, sendo o campo fundamental da existência de toda existência.
Tudo que conteve, contem e conterá o universo, repousa nela, e o campo primordial, o divino espaço que contém tudo. É o campo de batalha de todas as forças universais. É como se vivêssemos em um grande programa de computador, mas um computador infinito.
Ela se estende abaixo, acima, em todas as direções. É como se fosse uma esfera, mas não podemos representá-la assim, pois se estende em infindáveis direções multidimensionais, totalmente impossível de serem visualizadas por nossa mente objetiva.
A elevação representada pela palavra montanha é o nível em que podemos estar e que não é muito fácil de ser definida em termos objetivos. Para isso vamos usar palavras poéticas da própria bíblia.
"Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da tua herança, no lugar que tu, ó SENHOR, aparelhaste para a tua habitação, no santuário, ó Senhor, que as tuas mãos estabeleceram"
Shemot (Êxodo) 15:17
“Mas a Terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberás as águas.” Deuteronômio, 11:11
A analogia da água também é muito importante, pois esta representa o conhecimento e beber águas dos céus, representa que ao habitarmos os montes em lugares elevados de nossas mentes, nossa consciências receberão conhecimento diretamente, sem que precisemos buscá-los no mundo exterior, ou seja, nossas consciências serão alimentadas pelas “Chuvas diretamente do alto”.
O nosso próprio Moshe ( Moisés) interior, virá das águas (Que com o tempo e elevação, através de reflexões, devido às nossas meditações e chuvas do alto), proveniente de nossos conhecimentos (Água) eclodirá em nossa interioridade (Moisés - Vindo das águas), nos conduzindo à páscoa e à travessia do Mar Vermelho ou de juncos, que é a fronteira do nosso subconsciente, nos levando diretamente ao Monte Sinai, daí ao deserto espiritual e à fronteira antes do Jordão, sendo substituído pelo nosso Mashiach interior ou Yehoshuah – Josué. Não se importem com a sequencia dos eventos. Está aqui só para ilustrar, pois mesmo em estados menos elevados, “Na planície” as chuvas sempre acontecem. Sempre temos intuições.
Precisamos ter em mente que estas analogias, como apresentadas no “PARDES” são multidimensionais e em um momento pode estar mencionando fatos de um determinado nível, e em outro momento, pode se referir a outro. Por exemplo Israelita pode estar se referindo a um indivíduo real, que tem compaixão com os outros e que já está trilhando uma estrada de busca, já possuindo algum nível espiritual, mesmo que primário, como também pode ser relativo a um atributo interno do ser, como é o caso de uma tribo de Israel que é uma coletividade de nossos atributos internos. Tudo vai depender do contexto abordado e do nível de entendimento. A imaginação será o nosso guia, mas sugerimos prudência, muita prudência.
As várias transições, como a travessia do Mar, a travessia do Jordão, já com a utilização da arca feita de acácias, forradas de ouro por dentro por fora, encerrando as tábuas das leis, a chegada a Jerusalém, a coroação dos reis, a sacração do Beit Hamikdash (O templo sagrado de Jerusalém), todas estas coisas são relativas às transições de nossos seres fundamentais, em nossas elevações nos campos de nossos pensamentos. O quanto alto estamos nas nossas montanhas, mas também representam a nossa queda, nos erros que cometemos e na perda de nossa espiritualidade, representada após a morte de Salomão e a queda de seu filho na idolatria (Nossa queda na materialidade) e de todos os reis que o seguiram com a volta à queda representada pela conquista e primeira diáspora na Babilônia.
“Ovelhas perdidas tem sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, a voltar aos montes, de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do seu lugar de repouso.” - Jeremias 50:6
Todos estes níveis, são realidades já mencionadas por obras sagradas em todos os tempos, nas obras de Rashbi, obras de Ramac , Arizal , Baal há Sulam e outros como OLAMOT (Mundos) e Níveis das luzes (Almas).
Para os mundos são Assyia (Ação), Yetizra (Formação), Briah ( Criação), Atzilut (Emanação e Adam Kadmon (Homem arquetípico), já apresentados em outros ensaios
Para as luzes (Níveis da alma, também mencionadas na Torah): Nefesh, Ruach, Neshamah, Chaiah e Yechidah. Também já apresentados.
Vejam que estes níveis são estados que conquistamos em direção aos pontos mais altos de nosso mundo interior e quanto mais nos distanciarmos das ilusões do mundo exterior da ação (Assyah) mais nos elevaremos na escalada da espiritualidade e mais próximo do cume de nossa montanha estaremos.
Quando chegamos aos níveis do mundo da formação Yetzirah (Em Zeir Ampin), teremos que travar batalhas com os reis Cananitas que são as imperfeições de nossas emoções (Que são idólatras ou ligadas à materialidade), pois a idolatria representa o culto à materialidade ou paixão pelas coisas exteriores que são na realidade meras ilusões. Esta ilusão existe para que a batalha seja possível, sendo o cadinho que separá o puro do impuro. Na realidade o berço da espiritualidade.
Vemos que os povos cananitas são descendentes de חם (Cam) filho de noé (Que quer dizer caloroso, quente, intenso, férvido, apimentado denotando também emoções)
“Os filhos de Noé que saíram da arca foram, Sem, Cam e Jafé. De Canaã, Cam é o pai
Esses foram os três filhos de Noé: a partir deles toda a terra foi povoada.
Noé que era agricultor, foi o primeiro a plantar uma vinha.
Bebeu do vinho, embriagou-se e ficou nu dentro da sua tenda.
Cam, Pai de Canaã, viu a nudez do pai e foi contar aos dois irmãos que estavam do lado de fora.
Mas Sem e Jafé pegaram a capa, levantaram -na sobre os ombros e, andando de costas para não verem a nudez do pai, cobriram-no
Quando Noé acordou do efeito do vinho e descobriu o que seu filho caçula havia feito, disse: Maldito seja Canaã ! Escravo de escravos será para os seus irmãos.
Disse ainda: Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem! E seja Canaã seu escravo.
Amplie Deus o território de Jafé: Habite ele nas tendas de Sem, e seja Canaã seu escravo.” Genesis 9: 18 a 27.
Vejam a sequencia: Sem é a Fé, Jafé a razão e Cam o pai das as emoções (não retificadas, é claro).
Vejam que estes povos não querem dizer povos no sentido literal, pois sabemos hoje depois do descobrimento das Américas e outros lugares, que existem mais povos que não seriam filhos destes três filhos de Noé, mas infelizmente devido a má interpretação deste texto, cuja ideia era de que que Can seria o pai dos povos negros, passou a ser argumento à escravidão dos negros, cuja profecia seria bíblica. Isso é visto até hoje em que pessoas como alguns indivíduos que se intitulam “pastores” e que sem saber dos reais fundamentos da Torah, citam estes argumentos para consubstanciar os seus atos de racismo.
Porém esta mesma “profecia” dizia que a tenda seria de Sem e que Jafé moraria nela, mas apesar disso ninguém deu a sua tenda para os Semitas, que nesse contexto deveriam ser os donos dela. Veja que estes pensamentos são parciais, sendo tudo um acúmulo de bobagens e de interpretações maldosas do texto.
Isso significa simplesmente que a fé deve controlar a razão e esta as emoções. Só isso ! A visão da Nudez do pai a plantação da primeira vinha e assim por diante, ficará para um próximo ensaio. Não que não sejam importantes, mas são um pouco mais complicadas de explanar e precisarão de um pouco de mais simbolismo para análise.
Vamos nos deter em um símbolo importante, a de ( מלך - Rei ) que passa a existir depois da fase das batalhas de Yehoshua (Josué), com a coroação de um rei ainda Rasha (Malvado) que era Saul e logo depois no início das batalhas do Rei Davi que era um pastor e passou a ser um Rei guerreiro. Vejam que a figura do “Rei de Israel”, só passou a existir no final das batalhas com os Reis Cananitas. Isso é muito importante no contexto. Vejamos a profecia de Zacarias:
גִּילִי מְאֹד בַּת צִיּוֹן הָרִיעִי בַּת יְרוּשָׁלִַם הִנֵּה מַלְכֵּךְ יָבוֹא לָךְ צַדִּיק וְנוֹשָׁע הוּא עָנִי וְרֹכֵב עַל חֲמוֹר" וְעַל עַיִר בֶּן אֲתֹנוֹת:”
“ Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, Justo e Salvo pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta.” Zecharyiah- Zacarias 9:9
Esta profecia diz respeito ao Rei מלך que em hebraico é uma sigla composta por 3 letras, sendo a primeira da esquerda para direita, מ de מוח – "Moar", mente ou cérebro, a segunda, ל de לב – "Lev" Coração e a terceira כ de כבד – "Kaved" Fígado, massivo, vagabundo, ocioso que representava no passado a serpente.
Então era assim, a situação de “Rei” era a de que a mente ou ADAM controlaria HAVA (Eva) que representa as emoções e esta por sua vez controlaria a נחש NAHASH ou a serpente que representava os apelos da corporalidade ou da materialidade. Esta sequencia é uma alusão a “rei do seu reino”.
A fábula da tentação da sedução de Eva pela serpente é exatamente essa. Estamos invertidos, pois atendemos aos apelos da corporalidade, que afetam às emoções e estas controlam as nossas mentes. Quando guerreamos contra as nossas emoções, retificando-as. Passamos a controlar com nossas mentes (ADAM ou Moar – Mente) as nossas emoções (HAVA - Eva ou Lev - Coração) que por sua vez irá submeter (NAHASH – Serpente, representada por Kaved). A sequencia do rei Mente=>Emoções=>Corporalidade.
Esta mesma sequencia é representada na estrutura do cérebro de Paul Broca, anatomista francês do século IXX – O Cortex cerebral que existe no homem , reponsável pela análise, sendo a função cerebral mais sofisticada, o Sistema límbico ou mediano que começa a existir nos mamíferos e controla as emoções e o reptiliano que existe nos répteis que é a parte primitiva do cérebro e conectado diretamente à espinha dorsal (A serpente), sendo o responsável pela territorialidade e funções corporais. Por isso a representação de Nahash (Serpente).
Esta sequencia é a situação de Justo - Tzadik ou צַדִּיק, condição a ser buscada no contexto bíblico, como o seu objetivo final, ou seja, no final de tudo, seguindo a Torah, seremos Justos. A própria condição de Deus é esta a de justo. Nos devemos ser equivalentes em atributos a ele, sendo completamente justos.
הַצּוּר תָּמִים פָּעֳלוֹ כִּי כָל דְּרָכָיו מִשְׁפָּט אֵל אֱמוּנָה וְאֵין עָוֶל צַדִּיק וְיָשָׁר הוּא:
“Ele é a rocha cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é.” Devarim - Deuteronomio 32:4
“בְּאֹרַח צְדָקָה אֲהַלֵּך בְּתוֹךְ נְתִיבוֹת מִשְׁפָּט”:
“Faça andar pelo caminho da justiça, no meio das veredas do Juízo” Mishlei - Provérbios 8:20
“ עֲטֶרֶת תִּפְאֶרֶת שֵׂיבָה בְּדֶרֶךְ צְדָקָה "
“Coroa de honra são as cãs , quando elas estão no caminho da Justiça.” Mishlei - Proverbios 16:31
“דֶּרֶךְ שָׁלוֹם לֹא יָדָעוּ וְאֵין מִשְׁפָּט בְּמַעְגְּלֹתָם נְתִיבוֹתֵיהֶם עִקְּשׁוּ לָהֶם כֹּל דֹּרֵךְ בָּהּ לֹא יָדַע שָׁלוֹם:”
“ Não conhecem o caminho da paz, nem há justiça nos seus passos, fizeram para si veredas tortuosas, todo aquele que anda por elas não tem conhecimento da paz “ Yeshayahu - Isaias 59:8
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Neste contexto, vemos que a condição de “Salvo” não se aplica a um Mashiach (Messias), pois este já estaria previamente salvo.
Esta seria a condição de que um israelita, uma pessoa que teria passado por todas as fases, a do egito, teria passado pelo monte sinai, deserto, lutado em canaã com os reis cananitas, chegaria a Jerusalém, o lugar da plenitude da alma, “salvo”, já na forma de um Tsadik (Justo), montado em um burro ( חֲמוֹר – Hamur) da mesma raiz de (חומר – Homer ) – Matéria. Ou seja ele estaria no completo domínio da sua materialidade que neste caso (Homer) é a matéria como contrário de espírito.
Devemos compreender as profecias do Tanach (Bíblia Hebraica), como coisas que acontecerão conosco, ou seja, serão fatos e acontecimentos de nossa caminhada pela espiritualidade, sendo na realidade aclarações dos textos da Torah e do Tanach inteiro e não profecias de coisas que acontecerão no futuro ou que aconteceram no passado, no nosso mundo material. A interpretação de coisas que acontecerão no futuro, não faz parte dos objetivos da Torah ou do Tanach. A Torah é um livro de instruções. Uma espécie de manual do usuário para a alma humana e seu único objetivo, é de nos instruir na nossa caminhada em busca da perfeição.
Evidentemente tudo que exite no universo, é também uma extensão do nosso interior. Na realidade, todo o espaço virtual das realidades, tanto o interno quanto o externo, tem a mesma substância e estão um na origem do outro. A única diferença é que o nosso mundo interior é de primeira mão, e o exterior é proveniente do mesmo lugar, mas já interpretado por um sistema sensorial que depende de uma estrutura de segunda ordem, que foi preparada para gerar a ilusão de que existimos no mundo físico. Toda a energia, matéria, luz, cor e outros fenômenos, que geram toda a nossa corporalidade exterior, são na realidade, projeções de nosso coletivo interior, criando os múltiplos universos em que vivemos, emulando todas a ilusões da existência.
Desta forma, muita coisa do que acontece no nosso interior, nas raízes dos mundos superiores de nossa interioridade profunda, são projetados na corporalidade, desta forma, alguns acontecimentos, internos aparecem no mundo físico, simplesmente porque foram criados por projeção, ou seja, as raízes espirituais, acabam gerando ramos no mundo físico, mas é exatamente aí, onde se baseia a Torah em sua linguagem dos ramos e das raízes.
A extensão deste mundo mental ou espiritual, vai infinitamente até tocar na parte mais íntima da raiz de toda a criação o Or Ain Sof, a Luz sem Fim, de onde veio, vem e vira tudo que existiu, existe ou vá existir.
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